Podcast: O Jardim de Hekate

Neste episódio, falo sobre as plantas ligadas à Hekate. Também falo um pouco do uso das plantas por suas bruxas: Medea, Circe e Simaetha. CORREÇÃO: Sobre a artemísia, eu disse "deusa grega Artemesia", mas na verdade eu queria dizer "RAINHA grega Artemesia", a qual o nome da planta foi inspirado.



Hekate é comumente associada à plantas ligadas à morte, como plantas venenosas e plantas funerárias. Apesar de muitas e muitas plantas aparecem em listas como associadas à Hekate, a maioria possui pouca ou nenhuma evidência histórica. Porém, isso não invalidam o seu uso pelas bruxas de Hekate na atualidade.  

Lista das plantas de Hekate

Árvores:
Carvalho (gênero Quercus)
Cedro (gênero Cedrus)
Cipreste (Cupressus sempervirens)
Ébano (gênero Diospyros)
Louro (Laurus nobilis)
Oliveira (Olea europaea)
Plátano (gênero Platanus)
Salgueiro (gênero Salix)
Teixo (venenoso) (Taxus baccata)

Resinas:
Benjoim (Styrax benzoin)
Estoraque (Liquidambar orientalis)
Mirra (Commiphora myrrha)
Olíbano (Boswellia sacra)
Sândalo (Santalum album)
Sangue-de-dragão (Dracaena draco)

Ervas:
Absinto (tóxica, se queimada) (Artemisia absinthium)
Albafor (Cyperus longus)
Alecrim (Salvia rosmarinus)
Alquemila (Alchemilla vulgaris)
Arruda (Ruta graveolens)
Artemísia (Artemisia vulgaris)
Betônica (Stachys officinalis)
Brunela (Prunella grandiflora)
Camomila (Matricaria chamomilla)
Damiana (Turnera diffusa)
Dente-de-leão (Taraxacum officinale)
Hortelã (Mentha spicata)
Lavanda (Lavandula officinalis)
Manjericão (Ocimum basilicum)
Patchuli (Pogostemon cablin)
Sálvia (Salvia officinalis)
Tomilho (Thymus vulgaris)
Verbena (Verbena officinalis)

Especiarias:
Açafrão (Crocus sativus)
Alho (cascas: tóxica, se queimada) (Allium sativum)
Amêndoa (Prunus dulcis)
Canela (Cinnamomum verum)
Cardamomo (Elettaria cardamomum)
Cebola (Allium cepa)
Gengibre (Zingiber officinale)
Raíz de Alcaçuz (Glycyrrhiza glabra)
Sésamo (Sesamum indicum)

Vegetais, Flores, Frutas e outros:
Agrião (Nasturtium officinale)
Agrião-de-jardim (Lepidium sativum)
Asfódelo (Asphodelus ramosus)
Avenca (Adiantum capillus-veneris)
Cereja de cornalina (Cornus mas)
Galanga (Alpinia galanga)
Junco (gênero Juncus)
Madressilva (Lonicera caprifolium)
Orégão (Origanum dictamnus)
Romã (Punica granatum)
Rosa (gênero Rosa)
Sisymbrium officinale (não tem nome comum em português, mas em inglês é “hedge mustard”)
Smilax (gênero Smilax)
Teucrium polium (não tem nome comum)
Verbasco (gênero Verbascum)

Plantas Venenosas:
Acônito (Aconitum napellus)
Beladona (Atropa belladonna)
Erva-moura (Solanum nigrum)
Estramônio (Datura stramonium)
Heléboro-branco (Veratrum album)
Ipomeia (gênero Ipomoea)
Mandrágora (Mandragora officinarum)
Papoula negra (Papaver somniferum)

O jardim de Hekate nas canções órficas da Argonáutica

Versão em português (traduzida por mim)

"Nos confins mais distantes do recinto havia um bosque sagrado, sombreado por exuberantes árvores verdes. No bosque havia muitos loureiros, cerejas de cornalina e plátanos delgados. Neste lugar há muitas ervas de baixo crescimento com raízes poderosas. Nobre asfódelo, avenca, galanga, junco, verbena, sálvia, Sisymbrium officinale, madressilva roxa, cassidônia (lavanda), manjericão florescente, mandrágora, orégão, Teucrium polium, açafrão aromático, agrião-de-jardim, alquemila, camomila, smilax, papoula negra, brunéla, alcua (?), acônito, heléboro-branco e outras plantas venenosas que nascem do solo. No centro, um robusto carvalho com um tronco alto estendia seus galhos sobre a maior parte do bosque. Espalhados sobre um de seus longos galhos, pendiam o Velo de Ouro, vigiado por uma terrível serpente."


Hekate’s garden in the Orphic songs of the Argonautica

Versão em inglês - Colavito, J, (2011), “The Orphic Argonautica: An English Translation”, Albany, New York, USA.

"In the innermost reaches of the enclosure was a sacred grove, shaded by lush green trees. In the grove were many laurel trees, cornelian cherry and slender plane trees. In this place are many low growing herbs with powerful roots. Noble asphodel, maidenhair, galangal, rushes, vervain, sage, mustard, purple honeysuckle, cassidony, flourishing basil, mandrake, dittany, hulwort, aromatic saffron, nose –smart, lion – foot, chamomile, greenbrier, black poppy, all heal, alcua, aconite, white hellebore and other poisonous plants which are born from the soil. At its center a sturdy oak tree with a lofty trunk spread its branches out over most of the grove. Spread out over one of its long branches hung the Golden Fleece, watched over by a terrible serpent."

Mais detalhes sobre algumas plantas


Açafrão: Não confundir com o açafrão-da-terra, que é a cúrcuma. O açafrão ligado á Hekate é parte da flor da planta Crocus sativus e possui uma coloração vermelha intensa. Ele é citado como uma das plantas do jardim de Hekate na Argonáutica Órfica. Já no Hino Órfico à Hekate, ela é descrita como vestida de açafrão, por isso uma das cores mais fortemente associadas com a deusa é o vermelho. Nos Papiros Mágicos Gregos (CXXIII) é dito que ela é pintada de açafrão. Além disso, o açafrão é citado como um dos ingredientes de um incenso em um feitiço lunar de atração dos Papiros Mágicos Gregos (IV 2441-2621) que chama Selene, Hermes e Hekate.

Acônito: A associação de Hekate com o acônito é citada na Argonáutica Órfica. Diodorus Siculus escreveu que Hekate foi quem primeiro descobriu o acônito e, para descobrir a dosagem correta da planta venenosa para ser usada no envenenamento de inimigos, a deusa testou-a em estranhos. Também é dito que o acônito surgiu quando a saliva do Cérbero tocou a terra quando Hércules levou-o à luz do dia. Cérbero é um cão de três cabeças que guarda os portais do submundo e é também relacionado à Hekate.

Alho: O alho é mencionado como uma das oferendas mais comuns à serem deixadas nas encruzilhadas e cemitérios à Hekate, especialmente em seu papel como aquela que cura. Também era dito que protege contra os mortos inquietos. Usada em rituais de purificação, problemas menstruais, concepção e outros.

Artemísia: Alguns acreditam que a planta foi nomeada por conta da deusa Ártemis, que muitas vezes era vista como sincretizada com Hekate, por essa razão, a artemísia passou a ser também uma erva de Hekate. Porém, há mais evidências de que a planta recebeu esse nome por conta de uma rainha grega Artemesia, e não por causa da deusa Ártemis. A artemísia é extremamente ligada aos poderes lunares, por isso é um agente de cura, desenvolvimento psíquico e atração de poderes mágicos e manifestação. 

Asfódelo: Essa planta era cultivada próximo aos túmulos para servir como alimento aos mortos. Era usada para produzir cola, e também como comida. Tantos os gregos quanto os romanos usavam-na para tratamentos de várias doenças. 

Carvalho: É descrito na Argonáutica Órfica que no centro do jardim de Hekate há um carvalho. Sophocles também descreveu Hekate como coroada com folhas de carvalho e enrolada com serpentes selvagens.

Dente-de-leão: A associação dessa planta com Hekate é bastante contemporânea e pode ter surgido por conta de ser bastante prevalente nas áreas onde os cultos à deusa na antiguidade eram comuns. O dente-de-leão é ligado aos aspectos solares de Hekate e é muito ligado à cura, sendo um tônico "cura-tudo". Poucas pessoas sabem, mas o dente-de-leão é comestível e muito nutritivo, com especial destaque para suas raízes e folhas. Também pode ser usado para purificação.

Ébano: Sugere-se que a madeira negra de ébano esteja associada a Hekate, pois é dito que três portas de ébano davam acesso ao jardim da deusa. O ébano também foi associado ao submundo e a Hermes Chthonios. Também é feita referência à isso nos Papiros Mágicos Gregos (VIII.13): "Eu também conheço sua madeira: ébano".

Heléboro-branco: As raízes venenosas afetam o sistema nervoso, causando paralisia. De acordo com um mito, essa raíz, adicionada ao vinho, pode ser sido a causa da morte de Alexandre, o Grande.

Lavanda: Usada para diversos fins, mas especialmente para cura, melhorar o humor, problemas menstruais, cólicas, tratamento para picadas de insetos, etc.

Louro: Desde a antiguidade o louro é símbolo de status e reconhecimento de conquistas. As sacerdotisas em Delphi costumavam mascar uma folha de louro enquanto proclamavam visões, porém esse uso não é recomendado, já que o louro é tóxico (é por isso que quando usamos folha de louro na comida, sempre removemos antes de servir os pratos). Uma das provas da associação de Hekate com o louro é uma moeda antiga onde Hekate aparece usando uma coroa de louro (Museum of Fine Arts, Boston, Estados Unidos): 


Mandrágora: A associação de Hekate com a mandrágora é citada na Argonáutica Órfica. Antigamente, era dito que para colher a raíz da mandrágora, era preciso que amarrasse um cachorro para puxá-la, pois quando arrancada, a mandrágora dava um grito que matava o animal, servindo assim como sacrifício ao espírito da planta (isso era conhecido como baara). A raíz da mandrágora era usada em magias de possessão, claramente associado aos poderes e associações de Hekate. Por ter essa conexão com Hekate, era dito que a mandrágora era mais poderosa se fosse encontrada em uma encruzilhada.

Manjericão: Era um símbolo de luto na Grécia, e era associado com negatividade, incluindo abuso, pobreza, doença e morte, assim como espíritos malignos. As pessoas até mesmo pensavam que o manjericão era venenoso! Por isso, apenas recentemente essa erva passou a ser usada como comida na região. 

Orégão: Esta planta é nativa de Creta e era usada para tratar problemas estomacais e ajudar nos partos. Também era usada para abortos.

Papoula: Na Anatólia, a papoula era associada com nascimentos e fertilidade. Hekate é ligada à papoula por ter paralelos com as deusas Atagatis, Héstia, Deméter e Rhea. 

Romã: Apesar de ser raro, em algumas estátuas Hekate era esculpida como portando um fruto, presumidamente uma romã. Essa associação surge por Hekate ter um envolvimento especial nos mistérios de Deméter e Perséfone, no qual a romã tem um simbolismo e papel único, pois quando Perséfone decide ingerir as sementes de romã, ela sela o seu destino de passar metade do ano no submundo ao lado de Hades. As idas e vindas de Perséfone ao submundo representam o ciclo de vida e morte. Nesse contexto, a romã é símbolo de liberdade e perda da inocência através da escolha. A romã também simboliza abundância e fertilidade, já que suas sementes representam as muitas possibilidades de novas vidas. Imagem abaixo: Hekate segurando uma romã. Museu Rijksmuseum van Oudheden, Leiden, Holanda.


Teixo: O teixo foi conectado à Hekate provavelmente por ser uma árvore que tem raízes longas e é dito que chegam até ao submundo, um dos domínios da deusa. Essa árvore também é ligada com os mortos por sua longevidade e por isso não é incomum de encontrá-la em cemitérios na Europa. Statius em Thebaid escreveu: "Que ela os conduza com tochas de teixo flamejante; que ela dê três balanços de sua poderosa serpente; e não permita que as cabeças de Cérbero sejam obstáculos para aqueles privados de luz". A conexão do teixo com Hekate também é encontrada em Macbeth de Shakespeare, já que nessa obra é dito que as três bruxas são vistas colocando "fel de cabra, pedaços de teixo, prateados do eclipse da lua" em seu caldeirão, junto com outros ingredientes, antes que Hekate apareça para criticar o trabalho delas. Finalmente, o autor Matthew Suffness escreveu no livro Taxol: Science and Applications: "Os gregos consideravam o teixo sagrado para Hécate... Seus atendentes colocavam guirlandas de teixo em volta dos pescoços de touros negros que eles sacrificavam em sua homenagem e os galhos dos teixos eram queimados em piras funerárias. O teixo estava associado ao alfabeto e o nome científico de hoje, taxus, que provavelmente foi derivado da palavra grega para teixo, toxos, que é assombrosamente semelhante a toxon, sua palavra para arco e toxicon, sua palavra para veneno. Presume-se que este último tenha o nome da árvore devido à sua superioridade, tanto para arcos quanto para veneno".


O uso das plantas pelas bruxas de Hekate: Medea, Circe e Simaetha


As bruxas de Hekate eram conhecidas por suas habilidades com ervas e praticavam o que foi chamado de pharmakeia, a prática de lidar com as plantas em seus aspectos medicinais e mágicos. Acreditava-se que o cada planta tinha um espírito mestre, o que era chamado de Pharmakoi Kyrios.

Medea

Medea usou seus conhecimentos de ervas para vingança, envenenando o vestido de casamento de Creusa, a noiva de Jason, seu amado que a trocou.
Da Argonáutica II de Apollonius Rhodius, ele fala de Medea:
"Há uma donzela, nutrida nos corredores de Aeetes, a quem a deusa Hekate ensinou a lidar com ervas mágicas com habilidade superior a tudo o que a terra e as águas correntes produzem. Com elas, apaga-se a explosão de chamas incansáveis, e de uma vez ela pára o curso dos rios enquanto eles correm rugindo, e verifica as estrelas e os caminhos da lua sagrada."
Sophocles descreve em sua obra "The Root-Cutters" que Medea, nua, usava uma foice e jarra de bronze para colher ervas, o que é apropriado, já que este metal era considerado sagrado para as sacerdotisas de Hekate. Outra descrição de Medea colhendo ervas para usar em feitiços com Hekate aparece na Argonáutica, quando ela colhia ervas para ajudar Jason:
"O suco escuro, como a seiva de um carvalho da montanha, reunira-se em uma concha do Mar Cáspio para tornar o feitiço ainda mais agradável, quando ela tomou banho pela primeira vez em sete rios que sempre fluem e chamou sete vezes Brimo, enfermeira dos jovens, Brimo que vagueia pela noite, do submundo, rainha entre os mortos, -- na escuridão da noite, vestido com roupas escuras. E embaixo, a terra escura tremia e rugia enquanto a raiz titânica era cortada”.

Circe

Circe usou ervas para punir e transformar aqueles que cruzavam o seu caminho. Um exemplo é quando ela transformou Scylla em um monstro marinho porque esta estava se relacionando com o seu amado Glauco. 
Em seu livro Metamorfose, Ovídios fala de Circe:
"Ela fez uma mistura de ervas e, enquanto as cozinhava
Ela cantou em voz alta canções aprendidas com Hekate -
Cantar que deve fazer qualquer mortal tremer."


Simaetha

Em Theocritus Idyll 2: Pharmakeutriai sobre Simaetha:
"Delphis me trouxe dor, e eu queimo essa folha de louro contra Delphis. Assim como ela crepita nas chamas com um ruído agudo e labaredas, sem deixar vestígios de cinzas, o corpo de Delphis derrete na chama."


Referências




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