Hekate em Shakespeare

Trechos de Shakespeare em que Hekate é citada

Sonho de uma Noite de Verão (1595–1596)
ATO V, Cena II:
"PUCK — Ruge o leão a cada passo, uiva o lobo para a lua, ressona o campônio lasso, deslembrado da charrua. Consomem-se na lareira as últimas acendalhas; o pio da ave agoureira fala ao doente em mortalhas. Nesta hora da noite escura as pobres almas andejas se esgueiram da sepul- tura rumando para as igrejas. Nós, os elfos, que a parelha de Hécate sempre seguimos, e da luz do sol, vermelha, como num sonho, fugimos, de guarda estamos agora. Nenhum rato, em qualquer hora, a paz deixe perturbada desta casa abençoada. Com vassoura eu vim na frente para limpar o batente e jogar nesta hora morta todo o pó atrás da porta".

Hamlet (1600–1601)
ATO III, Cena II:
"LUCIANO — Pensamentos escuros, droga a jeito, tempo oportuno, mãos para esse feito, ninguém perto... Bebida desprezível, três vezes à meia-noite com a terrível maldição de Hécate mexida: neste corpo despeja os males que escondeste! (Despeja veneno no ouvido do Rei adormecido)".

Rei Lear (1605–1606)
ATO I, Cena I:
"LEAR — Então vai ser teu dote só a tua veracidade. Pois pela sagrada irradiação do sol, pelos mistérios de Hécate e, assim, da noite, pelas grandes operações dos orbes que nos fazem viver e definhar: desde este instante me desligo dos laços consanguíneos, preocupações de pai e parentesco, passando a te considerar como uma pessoa estranha a mim e a meu afeto, de agora para sempre. O cita bárbaro ou selvagem que faz da prole pábulo para o apetite, há de ser mais vizinho do meu seio, acolhido e consolado, do que tu, que não és já filha minha".

Macbeth (1605–1606)
Hekate é uma das personagens:
Descrição da personagem: HÉCATE, deusa grega da lua e da magia
Personagens sem falas: Três Bruxas, acompanhando Hécate

Ato II, Cena I:
"MACBETH — (...)
A natureza parece morta e sonhos tenebrosos
Invadem o sono fechado. A magia celebra
Oferendas à pálida* Hécate e o assassino macilento,
Alertado pelo seu atalaia, o lobo,
Cujo uivo é seu alerta, com passos furtivos,
Como no rapto agiu Tarquínio, em direção à vítima
Move-se como um fantasma. Confiável e fixa terra,
Não ouça meus passos, que caminho seguem, temendo
Que as próprias pedras delatem minha posição,
E removam o horror presente nesta noite,
Que agora se revela! Enquanto tramo, ele vive,
E o calor da ação com gélidas palavras contive".
*Hécate é associada à luz ‘pálida’ da lua.

Ato III, Cena II:
"MACBETH — Já é um consolo, eles são vulneráveis.
Então fique feliz: antes que o morcego alce vôo,
Antes mesmo que a negra* Hécate convoque
O besouro loução com seu zumbido modorrento
Para repicar o apelo bocejante da noite, terá ocorrido
Um ato de terrível memória".
*Macbeth refere-se a Hécate como ‘negra’, depois de haver se referido a ela como ‘pálida’ (Ato II, Cena I). Os aspectos mais tenebrosos da divindade são aqui invocados.

Ato III, Cena V:
"Numa planície próxima ao palácio de Macbeth.
Trovão. Entram as três BRUXAS, encontrando-se com HÉCATE

1ª BRUXA — Que se passa, Hécate, por que está irada?

HÉCATE — E não tenho motivo, bruxas
Insolentes e atrevidas? Como ousam
Negociar e traficar com Macbeth
Encantamentos e questões de morte?
E eu, mestra de seus feitiços,
A secreta origem de todos os males,
Fui chamada para receber minha parte
Ou mostrar a glória de nosso ofício?
E o que é pior, tudo que fizeram
Foi feito para um filho intratável*,
Ingrato e odioso que, como tantos outros,
Interessa-se só por si e não por vocês*².
Peçam desculpas agora. Vão embora,
E nas profundezas do Aqueronte*³,
Encontrem-me de madrugada*4.
Ele virá ansioso para saber seu destino.
Tragam os caldeirões, seus conjuros,
Seus encantos, o que for preciso!
Vou ganhar os ares. Nesta noite
Cumprirei um propósito sinistro,
Que terá efeito até o meio-dia*5.
Da ponta da lua minguante
Pende oculta gota vaporosa*6:
Eu a pegarei e trarei ao chão;
Destilada por passes mágicos,
Levantar-se-ão espíritos sutis*7
Que, pela força da ilusão,
Aprofundarão sua confusão.
Ele negará o destino, desdenhará a morte e prezará
Mais a esperança do que o tino, a graça e o medo.
E, todos sabem, a autoconfiança
É a maior inimiga dos mortais.
        Fora, ouve-se uma música e a canção [‘Venha embora, venha embora’]
Ouçam, sou chamada: meu pequeno espírito, vejam,
Sentado numa nuvem de névoa*8 aguarda por mim.
 [Sai]
1ª BRUXA — Venham, vamos descansar; ela logo voltará.
 Saem".
*Macbeth é tido por Hécate como uma criança malcriada.
*²No original, “loves for his own ends, not for you”. Hécate recrimina as Bruxas por auxiliarem Macbeth em seus intentos, pois ele não é adepto da feitiçaria nem reverencia as potências infernais.
*³Um dos rios subterrâneos que separavam o mundo dos vivos do mundo dos mortos (Hades) na mitologia grega.
*4 No original, “i’th’morning”, i.e., de manhã. Elemento incongruente, pois o poder e a influência de Hécate provém da noite. O termo ‘madrugada’ empregado na tradução – que corresponde a ‘early morning’ - expressa com mais propriedade o duplo sentido da profunda escuridão da noite avançada e também do luscofusco crepuscular, que marca a primeira aparição das Bruxas.
*5 No original, “great business must be wrought ere noon”. Repete-se aqui a incongruência apontada na nota anterior. Literalmente, Hécate afirmaria que ‘o grande trabalho deve ser feito (‘wrought’) antes (‘ere’) do meio-dia’. Todavia, sendo divindade noturna e pela referência seguinte à lua, tal trabalho não poderia ser feito à luz do dia. Torna-se mais inteligível pela interpretação de que este trabalho surtiria ‘efeito’ só até o meio-dia – a hora mais clara e quente -, momento no qual a preponderância das divindades diurnas é absoluta.
*6 No original, “vap’rous drop profound”. Trata-se do ‘virus lunare’, uma espuma que surgiria em certas ervas ou outros objetos quando submetidos a um encantamento na presença da luz da lua, simbolizada por Hécate. Essa idéia é expressa em português no termo ‘gota serena’, muito empregado na linguagem popular do Nordeste brasileiro.
*7 No original, “artificial sprites”. O termo inglês ‘artificial’, no contexto, pode ser entendido como ‘deceitful’, i.e, enganoso, caviloso, capcioso. O termo presente na tradução - ‘sutil’ – foi empregado nessa acepção.
*8 No original, “foggy cloud”. Nesse ponto, a atriz interpretando Hécate seria erguida e transportada para fora do palco por um artefato cênico. A canção serviria possivelmente para encobrir o ruído das roldanas que levantariam a deusa ex machina.

Ato IV, Cena I:
Numa caverna [com um caldeirão fervendo ao centro]
Trovão. Entram as três BRUXAS

1ª BRUXA — O gato malhado miou três vezes.
2ª BRUXA — Três e mais uma o ouriço guinchou.
3ª BRUXA — A Harpia grita, ‘É hora, é hora.’
1ª BRUXA — Rodemos em volta do caldeirão e
Dentro as venenosas entranhas joguemos:
Sapo que sob a pedra fria
Trinta e uma noites e dias
Dormindo transpirou veneno,
Ferva primeiro no pote encantado.
TODAS — Dobrem, dobrem, problema e confusão;
O fogo queima e borbulha o caldeirão.
2ª BRUXA — Filé de cobra das fendas*,
No caldeirão ferva e asse:
Olho de lagartixa*² e dedo de rã,
Lanugem de morcego e língua de cão,
Bicúspide*³ de víbora e ferrão de escorpião*4,
Perna de lagarto e asa de coruja,
Para um feitiço de grande confusão,
Caldo do inferno ferva no caldeirão.
TODAS — Dobrem, dobrem, problema e confusão;
O fogo queima e borbulha o caldeirão.
3ª BRUXA — Escama de dragão, dente de lobo,
Múmia de bruxa*5, bucho e goela
De voraz tubarão marinho276,
Raiz de cicuta*6 cavada no escuro,
Fígado de judeu blasfemo,
Fel de bode e ramo de teixo*7
Fatiado no eclipse lunar*8;
Nariz de turco e lábios de tártaro,
Dedo de nenê estrangulado no parto*9
E deixado na vala por uma puta,
Faz a papa ficar grossa e rija.
Adicione as vísceras de um tigre
Para condimentar nosso caldeirão.
TODAS — Dobrem, dobrem, problema e confusão;
O fogo queima e borbulha o caldeirão.
2ª BRUXA — Resfrie com o sangue de um babuíno*10
Então o feitiço estará bom e firme.

Entra HÉCATE e outras três Bruxas

HÉCATE — Oh, muito bem! Elogio seu esmero,*11
E todos devem dividir seus ganhos;
E agora ao redor do caldeirão cantemos
Como elfos e fadas numa roda*12,
Encantando tudo o que nele foi colocado.
Música e uma canção, ‘Negros espíritos, etc.’*13
 [Saem Hécate e as outras três Bruxas]
(...)"
* Provavelmente refere-se à ‘cobra-lisa-austríaca’ ou ‘smooth snake’ (Coronella austriaca), a única das três espécies de serpentes nativas das Ilhas Britânicas que se esconde em fendas no chão. Porém, não é venenosa.
*² No original, “newt”. Trata-se provavelmente de lagartixa da espécie Triturus cristatus, cuja coloração é similar à ‘salamandra-de-pintas-amarelas’ (Salamandra salamandra). A salamandra era considerada um animal mágico supostamente originário do fogo. Na verdade, refugiava-se durante o inverno em troncos caídos, que levados ao fogo, deles fugia; parecia, assim, que brotava das chamas.
*³ No original, “fork”. Refere-se à língua bipartida da víbora (Vipera berus), a única espécie de serpente peçonhenta da Inglaterra.
*4 No original, “blind-worm’s sting”. Também conhecido como ‘slow-worm’ (Anguis fragilis fragilis), é um lagarto ápode (sem pernas) nativo das Ilhas Britânicas, que era considerado ‘cego’ (blind) devido ser dotado de pequenos olhos com pálpebras. Todavia, não possui ‘ferrão’ (sting). A denominação em português que corresponde a esse animal é ‘licranço’ ou ‘cobra-de-vidro’, mas optou-se por substituí-lo pelo ‘escorpião’, que possui ferrão e é explicitamente venenoso.
*5 As bruxas pretensamente mumificavam partes de cadáveres humanos com propósitos mágicos.
*6 No original, “hemlock”. Refere-se à ‘cicuta-da-europa’ (Coniun maculatum), da qual é extraído um dos mais poderosos venenos vegetais conhecidos.
*7 No original “yew”. O teixo (Taxus baccata), presente nos pátios de muitas igrejas inglesas, é uma planta venenosa. Note-se aqui a menção sutil à antinomia ‘fair-foul’.
*8 O eclipse lunar era considerado o melhor momento para a colheita das ervas mágicas.
*9 Estrangulado pelo cordão umbilical ou morto pelas mãos da mãe.
*10 No original, “baboon”. Animal que na tradição literária personificava tanto a ira como a luxúria, o babuíno ou mandril (Papio ursinos) possui sangue quente, literal e metaforicamente; o fato de seu sangue esfriar a poção das Bruxas explica-se pela contradição demoníaca.
*11 Supõe-se que a fala de Hécate foi escrita pela mesma pessoa que escreveu o Ato III, Cena V, provavelmente Thomas Middleton, e adicionada à peça posteriormente. A comparação da dança das bruxas em volta do caldeirão com a dança de elfos e fadas soa imprópria.
*12 Segundo a tradição, a dança das fadas criaria ‘fairy rings’ (anéis mágicos ou encantados), i.e., círculos de vegetação mais escura em campos e gramados.
*13 A mesma canção aparece na peça “A Bruxa” de Middleton.



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